Carolina Matos e Lara Gurgel*
Coletivo Woman Inside Trade
A relação entre comércio internacional e mudanças climáticas já não é uma suposição — é um fato estruturante da economia global contemporânea. Estima-se que 20% a 30% das emissões globais de CO₂[1] estejam associadas ao comércio entre países, seja pelo transporte marítimo e aéreo, seja por cadeias de valor altamente intensivas em energia. Ao mesmo tempo, o comércio é um vetor decisivo de desenvolvimento: amplia inclusão social e econômica, difunde inovações, acelera a adoção de tecnologias limpas e fomenta padrões mais sustentáveis de produção e consumo. Essa ambivalência — entre riscos climáticos e oportunidades transformadoras — evidencia o papel estratégico do comércio na consolidação de economias de baixo carbono que sejam, simultaneamente, competitivas, resilientes e socialmente inclusivas.
A COP30 abre uma janela singular para o Brasil reposicionar o tema no centro da diplomacia climática global. Ao sediar a conferência no coração da Amazônia — patrimônio socioambiental e ativo econômico estratégico — o país não apenas simboliza o elo indissociável entre natureza e desenvolvimento, mas também assume a responsabilidade de articular, de forma estruturada, as agendas de comércio, inclusão social e ação climática. Trata-se de uma oportunidade histórica para impulsionar um debate integrado sobre justiça climática, competitividade sustentável e prosperidade compartilhada, demonstrando que transição ecológica e crescimento econômico podem — e devem — avançar juntos.
O comércio internacional é vetor de crescimento e instrumento de transformação. A transição energética e a agenda climática já estão reconfigurando fluxos comerciais, cadeias de valor e custos de produção. O avanço dos combustíveis sustentáveis, como o SAF (Sustainable Aviation Fuel), tende a alterar a competitividade dos países exportadores, enquanto cresce a demanda global por bens e serviços verdes — energia renovável, biocombustíveis, agricultura de baixo carbono, bioeconomia amazônica e soluções circulares. Nessa nova economia verde, países que conseguirem alinhar suas exportações às exigências ambientais terão vantagem competitiva duradoura.
É nesse contexto que o Brasil se projeta como protagonista natural dessa transição. O país é uma das maiores potências agroalimentares e energéticas do mundo, sustentado por uma matriz elétrica majoritariamente renovável e por reconhecida capacidade tecnológica e científica. O Brasil exporta alimentos e energia com baixos níveis de emissão — e dispõe de amplo potencial para expandir a oferta de produtos e serviços ambientais de alta integridade, como biocombustíveis avançados, commodities agrícolas rastreáveis e créditos de carbono robustos. Políticas como o Plano Clima, o Código Florestal, os sistemas de monitoramento e rastreabilidade e o fortalecimento de cadeias agroindustriais sustentáveis demonstram que o Brasil tem condições de liderar uma nova etapa do comércio internacional — ancorada em inovação, competitividade verde e inclusão socioeconômica.
A COP30 amplia essa oportunidade. Com os holofotes internacionais voltados para o país, o Brasil pode usar esse momento para reposicionar o comércio internacional como pilar da transição verde, estimulando um debate global sobre como práticas comerciais justas e baseadas em ciência podem impulsionar o desenvolvimento sustentável e a inclusão social. A visibilidade da conferência precisa ser aproveitada para que o país proponha soluções concretas e reforce a liderança nacional em temas como agricultura sustentável, descarbonização das cadeias produtivas e bioeconomia.
Apesar dos avanços, a transição verde global tem se dado de forma desigual. Países em desenvolvimento ainda enfrentam restrições tecnológicas, financeiras e regulatórias para adequar seus sistemas produtivos aos novos padrões ambientais. Nesse cenário, iniciativas como o Mecanismo de Ajuste de Carbono na Fronteira (CBAM) da União Europeia — embora sustentadas pelo objetivo legítimo de evitar vazamento de carbono — correm o risco de funcionar como barreiras comerciais encobertas, penalizando exportadores sem considerar suas assimetrias de desenvolvimento e diferentes pontos de partida. Corrigir essas desigualdades é imperativo. Um regime comercial mais inclusivo e baseado em cooperação é condição necessária para que a descarbonização global avance de forma justa, eficiente e capaz de gerar prosperidade compartilhada.
É nesse cenário que o comércio agroalimentar assume papel ainda mais estratégico. A segurança alimentar mundial depende de cadeias de suprimento estáveis, sustentáveis e resilientes às mudanças climáticas — e isso exige um comércio internacional ancorado em regras previsíveis, transparentes e equitativas, que assegurem a participação de diferentes produtores e regiões. Quando orientadas por ciência, rastreabilidade e cooperação, as práticas comerciais no setor podem ampliar a oferta de alimentos, gerar renda, reduzir desigualdades e acelerar a inovação para uma agricultura de baixo carbono.
A sustentabilidade, contudo, não é apenas uma questão ambiental; é também uma agenda de inclusão. No Brasil, segundo o estudo Mulheres no Comércio Exterior, apenas 14,5% das empresas exportadoras têm maioria feminina no quadro societário[2]. E não por acaso: setores com forte protagonismo de mulheres — como a agricultura familiar, a indústria têxtil e diversas cadeias produtivas de pequenos negócios — estão entre os mais vulneráveis aos impactos climáticos e às novas exigências ambientais globais.
Se bem desenhado, o comércio internacional sustentável pode se tornar um poderoso motor de empoderamento econômico feminino, desde que incorpore políticas de financiamento acessível, capacitação técnica, redes de apoio, padrões não discriminatórios e regulações que ampliem — e não restrinjam — a participação de mulheres em mercados globais. É essa visão que inspira a atuação da Women Inside Trade (WIT): fortalecer a liderança feminina no comércio internacional como força transformadora da transição justa.
Mesmo em um cenário de crises sucessivas, retrocessos regulatórios e incertezas decorrentes da reconfiguração geopolítica, investidores, consumidores e instituições financeiras continuam a exigir transparência, rastreabilidade e responsabilidade climática em toda a cadeia produtiva. A sustentabilidade — em suas dimensões ambiental, social e de governança — deixou de ser diferencial competitivo para se tornar condição básica de acesso a crédito, investimento e mercados. A instabilidade global, longe de enfraquecer essa agenda, evidencia sua centralidade: cadeias sustentáveis são, sobretudo, cadeias mais seguras, resilientes e preparadas para o futuro.
A COP30 precisa marcar uma virada institucional na forma como o mundo trata o vínculo entre comércio internacional, sustentabilidade e desenvolvimento social. Apesar da crise do multilateralismo, soluções climáticas de longo prazo não serão alcançadas sem um esforço coletivo e organizado de todas as nações desenvolvidas e em desenvolvimento. Assim, é importante que a Organização Mundial do Comércio (OMC) incorpore em suas discussões as diretrizes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC); que os países apoiem a criação do Fórum Comércio-Clima proposto pela presidência da COP30; e que todos promovam diretrizes globais para um comércio sustentável. O Brasil pode liderar esse processo, articulando o multilateralismo e fortalecendo sua posição na construção de uma governança mais equilibrada, inclusiva e verde.
O comércio internacional não deve ser visto como obstáculo à sustentabilidade, mas como parte essencial da solução climática do desenvolvimento social inclusivo. Ele representa o veículo entre tecnologia, inovação e inclusão. Para isso, é preciso um novo pacto global — um comércio baseado em ciência, cooperação e equidade. A COP30, em Belém, pode ser o ponto de inflexão dessa agenda: o momento em que o mundo reconhece que não há transição justa sem comércio justo — e que o futuro sustentável do planeta passa, inevitavelmente, por cadeias de valor mais verdes, mais integradas e mais humanas.
[1] London School of Economics. How does trade contribute to climate change and how ca it advance climate action? 2023. Disponível em: https://www.lse.ac.uk/granthaminstitute/explainers/how-does-trade-contribute-to-climate-change-and-how-can-it-advance-climate-action/#:~:text=Why%20is%20it%20important%20to,these%20strategies%20have%20their%20limits. Acesso em 23 de outubro de 2025.
[2] MINISTÉRIO DO DESENVOLVIMENTO, INDÚSTRIA, COMÉRCIO E SERVIÇOS (MDIC). Mulheres no Comércio Exterior. 2025. Disponível em: https://www.gov.br/mdic/pt-br/assuntos/comercio-exterior/estatisticas/outras-estatisticas-de-comercio-exterior-1/Mulheres_comercio_exterior_segunda_edicao.pdf. Acesso em 23 de outubro de 2025.
Carolina Matos é Diretora de Conteúdo e Produtos na WIT. É Gerente de Relações Brasil-EUA e Sustentabilidade na Amcham Brasil e Diretora da rede WIT, baseada em São Paulo. Trabalhou como Gerente de Exportação na ABIARROZ e como Analista de Políticas e Indústria na CNI. Participou de várias missões internacionais, incluindo a Missão Presidencial para a China (2023), fez parte do Programa em Comércio Internacional na Missão do Brasil na OMC em Genebra (2020) e participou da 57ª sessão do Comitê de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (ECOSOC) da ONU (2016). Possui bacharelado em Relações Internacionais pelo Uniceub e MBA em Comércio Exterior e Negócios Internacionais pela FGV.
Lara Gurgel é Diretora-executiva do Instituto de Relações Governamentais (IRELGOV), o primeiro think tank de relações governamentais do Brasil, e Vice-Presidente da Women Inside Trade, maior rede brasileira de profissionais mulheres atuando no comércio internacional. Com formação em Publicidade e Propaganda e especialização em Comércio Exterior e Negócios Internacionais, Lara acumula mais de 15 anos de experiência em comércio exterior e relações governamentais. Ao longo de sua carreira, Lara trabalhou na Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), no Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e na consultoria The Palladium Group. Ela liderou projetos de capacitação em comércio internacional e ações de relações governamentais que beneficiaram inúmeras empresas nacionais, em especial Micro, Pequenas e Médias Empresas (MPMEs).